A série “Crystal Lake”, prelúdio da franquia Sexta Feira 13, foi disponibilizada recentemente pelo serviço de streaming Universal, e rapidamente se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Em meio a críticas e análises positivas, foi impossível não ter a curiosidade instigada para assistir. Dito isto, deixarei aqui as minhas percepções da série sem spoilers consideráveis, para não afetar a experiência caso decida acompanhar a produção.
Ambientada nos anos 70, a trama explora a história de Pamela Voorhees (Linda Cardellini), inicialmente apresentada como mãe solteira de um filho atípico, chamado Jason (Callum Vinson). Pamela percorre um caminho de dor e luto após um descuido alheio desencadear no afogamento e desaparecimento do filho. Mas o seu comportamento inconsistente e anormal transparece dores que vão além da trágica perda de Jason.

A quantidade massiva de conteúdos sobre a série postados logo em sua estreia mostrou algo que já era esperado: a polarização das opiniões do público. Enquanto alguns amaram a experiência nostálgica, outros se queixaram das mudanças de enredo comparadas aos filmes e até de uma exagerada “humanização” de um dos maiores vilões da história. E posso afirmar que nenhum dos dois está totalmente equivocado. No entanto, gosto de repensar sobre a origem de histórias já conhecidas e acredito que Crystal Lake traz isso de forma irretocável. Somos conduzidos não apenas através da história trágica já conhecida de Jason, mas sobre traumas ainda maiores vividos por ele e Pamela no passado. Enquanto alguns acham que apontar a história sensível de Jason é humanizá-lo demais, acredito que os acontecimentos crueis vividos por Jason e Pamela justificam dois pontos: a capacidade sobrenatural de sobrevivência do personagem e a conexão desmedida entre mãe e filho. Para mim, o fato de podermos nos emocionar durante a série não torna Jason menos forte, uma vez que, mesmo conhecendo sua debilidade física e psicológica inicial, veremos a construção de um ser de capacidades sobre-humanas e entender que isso é moldado desde o ventre da mãe.
Apesar da violência gráfica brutal, Crystal Lake não se apega aos exageros típicos de produções slasher. Além disso, o terror é um elemento deixado de lado aqui: a história é conduzida de forma a explicar os acontecimentos sobrenaturais, atenuando o terror em vez de acentuar. O medo que a série pode proporcionar está mais associado a uma atmostera de tensão do que a paranormalidade em si. Isso pode ser uma queixa para os fãs, mas torna a série mais “acessível” para o público que evita a franquia por sensibilidade ao terror psicológico e sobrenatural dos filmes.
Para mim, o ponto chave da série consiste na alteração desesperadora de emoções ao longo da exibição de cada episódio. Roteiro e atuação trabalham em perfeito conjunto para que sejamos transportados em segundos por sentimentos de medo, agonia, choque ou até mesmo a mais profunda compaixão pelos personagens. Se prepare para conter as lágrimas e em segundos se chocar com uma morte absolutamente brutal. É assim que a série é capaz de fixar o olhar do público em cada segundo de exibição: através da imprevisibilidade que impede a sensação de tédio.

Apesar de acertar em fotografia, ambientação, roteiro e efeitos, considero que o maior trunfo de Crystal Lake consiste no trabalho de uma pessoa: Linda Cardellini. Linda dá vida a personagem Pamela de maneira brilhante. Pamela é uma personagem multifacetada que pode ter suas emoções transformadas diversas vezes em uma cena só. O desespero da dúvida, a dor do luto, a psicopatia caótica e os atos imprudentes fazem de Pamela uma personagem imersa ao caos, o que por si só já é atrativo ao público. Mas o trabalho de Linda faz com que tudo pareça tão real que torna-se impossível não se conectar profundamente a ela e sua história.
A franquia de Sexta Feira 13 é, sem dúvidas, uma das mais popularizadas do gênero de todos os tempos. E é por isso que eu, mesmo não sendo uma grande consumidora de conteúdos de terror e seus subgêneros, sempre soube da premissa de todos os filmes e até mesmo dos quadrinhos da saga. Jason se tornou algo para além de um personagem, sendo um símbolo do terror e conquistando fãs durante décadas. Por isso, Crystal Lake chega como um presente para os fãs, sendo uma chance de imergir profundamente na origem de Jason e de todos os acontecimentos que desencadearam os acontecimentos aterrorizantes no acampamento. A história não é desenvolvida puramente para narrar fatos e sequências de acontecimentos: existe um conjunto que é capaz de conectar o espectador de forma que ele seja capaz de sentir cada emoção retratada e se sinta parte do desenrolar da trama. Se você é apaixonado por terror slasher e violência gráfica, esta série é pra você. No entanto é necessário deixar um adendo: se o mistério impenetrável de um vilão sobrenatural é o que te fascina no gênero, Crystal Lake pode te decepcionar, uma vez que o teor paranormal acaba sendo “diluído” em explicações consistentes da origem de Jason.
Crystal Lake é mais um acerto de Brad Caleb Kane, expandindo o universo da franquia Sexta Feira 13 com qualidade mais que suficiente para chamar a atenção dos fãs e também atrair a curiosidade daqueles que não acompanharam a saga.
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