O Meia Lua foi convidado para a cabine de imprensa do filme Dia D, produção que marca o retorno de Steven Spielberg ao gênero de ficção científica com base em fenômenos extra terrestres. O longa chega em um momento, digamos, extremamente oportuno: enquanto os EUA liberam arquivos sobre OVNI’s, o Brasil para mediante a especulações sobre acontecimentos sobrenaturais no interior do Paraná. Apesar de pertinente num contexto atual, a temática levanta debates que perduram há décadas, dividindo não apenas quem acredita ou quem se limita ao ceticismo, mas também opiniões sobre as possíveis consequências da comprovação de vida fora da Terra.
Em Dia D, somos inicialmente apresentados ao protagonista Daniel (Josh O’Connor), um jovem que vê sua vida sofrer uma reviravolta no momento em que ele, num ato de bravura, decide que as centenas de arquivos pelos quais ele era pago para proteger, não podem mais ficar em segredo. Junto de Hugo (Colman Domingo) ele lutará para que os arquivos sejam os responsáveis por trazer a verdade sobre os maus tratos e explorações aos quais os extraterrestres são submetidos na Terra, além de confirmar a existência deles para aqueles que ainda se diziam céticos. Daniel tem sua vida cruzada com Margareth (Emily Blunt), uma jornalista do tempo que repentinamente começa a ter comportamentos estranhos e habilidades questionáveis. Juntos, eles enfrentarão a poderosa empresa Wardex e seu responsável, Noah (Colin Firth), que tem objetivos muito além de ambição ou poder.

Dia D surge com uma premissa muito diferente do que se espera no gênero. Aqui, não seremos apresentados ao caos e ao terror que percorrem qualquer pensamento da possibilidade de uma invasão alienígena, mas sim as possibilidades de consequências para quem tenta divulgar e confirmar a existência desses seres. Não teremos qualquer fio de terror ou suspense, nenhum jumpscare ou sequer alguma imagem agoniante de formas de vida desconhecidas. O foco em Dia D está voltado, quase que em totalidade, para uma análise comportamental humana: as diferentes perspectivas diante do que pode acontecer, o abuso de poder, a união diante de crises, e principalmente a capacidade de se arriscar em nome da verdade.
Apesar da narrativa um pouco não usual no gênero, acho que o roteiro cai um pouco no clichê. E não me entendam mal: escapar do foco apenas em criaturas aterrorizantes, naves cheias de sons e cores, medo e pânico, é sim algo positivo. Mas Dia D faz isso caminhando para outro clichê: um protagonista representante de uma empresa detentora de grande poder persegue um mocinho (e sua mocinha) atrás de um objeto capaz de mudar o percurso do mundo. Quantas vezes já vimos sinopses parecidas? Os extra-terrestres, apesar de serem a figura central do enredo, ocupam quase nenhum tempo de tela. O que vimos até o final do segundo ato se torna pouco mais do que um jogo de gato e rato em um ritmo que beira o tedioso, até pelo longo tempo de exibição, que chega a quase duas horas e meia. No entanto, o terceiro e último ato do filme “Ressuscita” o ânimo do espectador, elevando o nível de ação e trazendo inúmeros questionamentos que começam a pairar em nossas mentes sobre como tudo aquilo vai (ou não) funcionar.

Se tratando de um filme de Steven Spielberg, é preciso ressaltar que muito é entregue no quesito qualidade, seja de áudio, visual, ou até mesmo da escolha de elenco. Enquanto os efeitos visuais técnicos e práticos são irretocáveis, a trilha sonora brilha igualmente e não passa despercebida. Sobre a atuação, o destaque fica, com larga vantagem, para Emily Blunt. Sua personagem parece vivenciar uma emoção por segundo, o que a atriz retrata com maestria. Ouso dizer que Emily é a única capaz de exercer uma atuação que cative o espectador e crie um vínculo entre o personagem e o público.
Em Dia D, podemos concluir que um bom filme foi entregue. A forma como as pontas do roteiro vão se conectando ao longo da exibição é muito satisfatória, deixando pouca ou qualquer dúvida sobre a história contada. O final é absolutamente corajoso (e vocês irão entender o porquê) e será o que provavelmente deixará o espectador reflexivo. É como se o filme de desdobrasse de maneira morna e tivesse sua fervura levantada apenas nas últimas cenas, dando ao público exatamente o que ali é retratado o impacto da descoberta. Não espere suspense ou terror, e muito menos uma exploração constante de corpos alienígenas ou de naves e artefatos futuristas repletos de luzes. O foco aqui é contar uma história coerente e intrigante, e isto é executado com sucesso.
Vale a pena conhecer a história de Dia D (ou Disclosure Day, na língua original). Apesar de não tão surpreendente e do ritmo arrastado inicial, a história nos dá uma perspectiva interessante sobre a temática central. Em um determinado momento, uma freira diz que o universo é grande demais para que Deus tenha o criado apenas para nós. Em outro, somos aconselhados a não temer aquilo que nem sequer conhecemos. Acredito que a meta do filme é justamente essa: abordar a vida fora da Terra como algo menos demonizado e perigoso do que a própria humanidade.
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