Participamos da cabine de imprensa de um filme sobre o qual, até então, não havíamos ouvido falar muito: “100 noites de desejo”. Existe algo positivo em assistir a filmes nessas condições, uma vez que não se tem a sensação de previsibilidade, capaz de desencadear uma certa monotonia em alguns filmes. No entanto, será que a surpresa em “100 noites de desejo” foi positiva ou apenas mais uma para ser esquecida em breve?
Em “100 noites de desejo”, somos apresentados a um tempo absolutamente regido por situações de absoluta misoginia, no qual prevalece o pensamento guiado pelos ensinamentos deixados por uma entidade conhecida como Birdman. Sob esse pensamento, mulheres devem engravidar imediatamente após o casamento, gerando um herdeiro homem. Caso contrário, a pena é a morte. É então que a protagonista Cherry (Maika Monroe) se vê sem saída ao se casar com o ausente Jerome (Amir El-Marsy), um homem absolutamente frio que se recusa a se aproximar da esposa. Interrogada sobre o porquê da não gravidez, ela recebe um ultimato: 100 dias para que haja a concepção. Jerome, num ato questionável, decide fazer uma viagem e deixa a esposa aos cuidados da criada Hero (Emma Corrin) e de seu amigo Manfred (Nicholas Galitzine), mesmo que este deixe claro sua intenção de tomar tudo o que é de Jerome.

Já posso iniciar dizendo que, apesar do material de divulgação rebuscado, “100 noites de desejo” não é um filme nada clichê. Apesar de enquadrado no gênero romance, o longa se desenrola com um enredo forte e substancial que foi capaz de me prender durante os noventa minutos de duração, além de abordar temas que geram uma reflexão que perdura após o filme. O longa tem sim uma veia romântica claríssima, mas não se escora em cenas de amor excessivas: o que prende o público é o entrelaço de duas histórias narradas, bem como um desenvolvimento que permite a criação de inúmeras suposições para o final. A trama é clara e simples, mas ainda assim demanda atenção por parte do espectador.
Visualmente, “100 noites de desejo” é uma obra prima. Apesar das poucas ambientações, nota-se o cuidado nos detalhes de cada ponto da casa e figurinos, aprimorando a imersão da obra. O fato de os personagens pouco transitarem entre os cenários possivelmente é proposital, visando retratar a monotonia e desconforto físicos e emocionais que pairam naquele castelo. Em dados momentos, foi impossível não lembrar dos cenários de “O Morro dos Ventos Uivantes”, adaptação também lançada neste ano. Contudo, aqui temos uma extravagância moderada e menos excentricidade.

Assim como em qualquer obra cinematográfica, encontrei alguns pontos negativos em “100 noites de desejo” que devem ser mencionados. Um deles é o pouquíssimo desenvolvimento dos personagens. Com exceção de Hero, não sabemos ao certo quase nada sobre a origem das figuras centrais da história, o que faz com que não criemos tanto vínculo ou conexão. Também considero que o final excessivamente fantasioso toma do espectador aquilo de mais impactante que o filme é capaz de proporcionar: a indignação. Além disso, alguns dos principais pontos de partida do enredo ficam absolutamente implícitos, como as questões que tornam Jerome um marido tão negligente. Dado o pouco tempo de tela, acredito que havia mais espaço para que estes pontos fossem trabalhados na trama.
Por fim, considero que “100 noites de desejo” é um bom filme. Apesar do baixo orçamento, a equipe de direção soube trabalhar em uma trama que desperta o interesse de quem assiste durante todo o tempo de exibição, além de abordar temas de grande importância social sem que isso se torne maçante ou tedioso: as pautas são percorridas de forma a se tornarem parte da história, e não uma muleta para um enredo vazio. É uma história emocionante e intrigante que nos traz a consciência sobre o poder do conhecimento e dilui o gênero romântico ao amargor de um drama revoltante.
O longa, dirigido e roteirizado por Julia Jackman, chega aos cinemas no dia 4 de junho de 2026.
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